A Ansiedade Comum

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A Ansiedade Comum

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A sociedade moderna afastou a morte do nosso cotidiano. As pessoas morrem em hospitais, os velórios são feitos em lugares específicos e afastados, entretanto os meios de comunicação social alardeiam todo tipo de violência, trazendo para dentro de nossas casas o que aconteceu de pior no mundo. A morte revestiu-se de tons de tragédia e violência, mas apesar de ser o destino de todos nós, fazemos de tudo para não pensarmos nela.

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E aí passamos a viver num estado elevado de ansiedade, querendo esquecer nosso destino comum, sejamos ricos ou pobres, cultos ou ignorantes, poderosos ou mendicantes.
No livro dos Salmos, da Bíblia Sagrada, encontramos o seguinte questionamento: “Por que esta agitação dos povos e este rosnar inútil das nações?” (Sl. 2, 1). Sabe-se que os Salmos foram concluídos no final do século III antes de Cristo. Então, esta citação tem pelo menos 2.200 anos. Você consegue imaginar como era a vida naquele tempo, como era o ritmo das coisas e a velocidade com que as notícias circulavam? No entanto o salmista está expressando um estado de estresse: “Agitação dos povos.” Povos agitados, inquietos, ansiosos e intranqüilos. Não sabemos a que fato ou situação específica, se é que existia uma, ele se referia, mas descreve um estado que nós hoje conhecemos muito bem. Hoje, os povos se agitam on-line. O normal da era da comunicação é a agitação permanente. O salmista, na segunda parte do versículo, classifica a agitação como um “rosnar inútil das nações.” O que é rosnar? Rosnar é “a voz surda do cão que, sem latir, ameaça e arreganha os dentes” ou, então, significa “dizer por entre dentes em voz baixa, murmurar e resmungar.” (Aurélio, 1986, p.1523). Já agitar é “mover com freqüência, abalar, preocupar-se, inquietar-se, perturbar-se etc.” (Aurélio, 1986, p.62). Imagine um frasco com um líquido dentro. Pegue-o. Visualize-o na sua mão. Agora, agite-o freneticamente, com toda a força, para cima,para baixo, para os lados. Como você imagina o grau de excitação desse líquido? Sobe, desce, esquerda, direita, sobe, desce… Isso é agitação. Substitua, em sua imaginação, o líquido dentro desse frasco por pessoas, seres humanos. Imagine um grande frasco cheio de seres humanos, sendo agitado constantemente para cima, para baixo, para a esquerda, para a direita, para cima, para baixo… Você já se sentiu assim? O salmista ressalta que a agitação é um resmungar inútil, que não serve para nada. E hoje, qual é a utilidade do nosso rosnar?
A semelhança dos acontecimentos de 2.200 anos atrás com os de hoje, apesar de termos evoluído muito no conhecimento científico, na tecnologia e na capacidade de intervir na natureza, é que continuamos com as mesmas indagações fundamentais. No livro do Eclesiástico elas já estão presentes: “Que é o homem e para que serve? Que mal ou que bem ele pode fazer? A duração da vida humana é, quando muito, cem anos. No dia da eternidade, esses breves anos serão contados como uma gota de água do mar, como um grão de areia.” (Eclo. 18,7-8).
Temos consciência da nossa finitude. Apesar de toda tecnologia e do avanço do conhecimento, o ser humano continua com sua existência limitada por um período de tempo, que na história do Universo é equivalente a uma gota de água do mar ou então como um grão de areia. Isso nos incomoda muito e fazemos de tudo para esquecer. E isso nos desumaniza. O homem eterno não é humano. Apesar disso, constrói castelos que pretendem atravessar os tempos, acumula como se fosse viver por muitos séculos – e isso sem medir o custo e suas conseqüências.
A agitação dos povos entorpece, nega a nossa realidade. E toda negação da realidade é uma forma não construtiva de adaptação. É uma mutilação. A venda colocada sobre os olhos não altera a realidade, apenas deturpa a percepção que temos dela. E nossa ação sobre a realidade depende, fundamentalmente, dessa percepção. Quanto mais realistas formos, maiores chances teremos de intervir adequadamente. Hoje, sabemos que a agitação das nações traz uma série de conseqüências para nossas vidas e para nossa saúde física e emocional. A principal é que o agitado não tem rumo definido. É um joguete de forças que ele não controla. Não consegue nem provisoriamente dar uma resposta às questões fundamentais: O que é o homem? Para que ele serve? Que mal ou bem ele pode fazer? Como viver com a consciência de uma vida limitada pela morte? No âmbito estritamente individual, significa conseguir responder com clareza quais são os objetivos da vida. “Conhecereis a verdade e a verdade vos livrará” (Jo 8,32), disse Jesus. Num mundo acostumado com mentiras ou falsas verdades, essas palavras podem parecer ingênuas. A verdade, no entanto, não tem efeito colateral. Ela sempre é libertadora.
 
FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa. 2 ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira,1986.

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