As Fontes do Conhecimento

O ser humano, como gerador de conhecimento e cultura, vem acumulando informações, as quais são expressas das mais diversas formas. Temos a poesia, a música, as expressões artísticas em geral e o pensamento como construtores de conceitos e idéias. Os métodos científicos foram capazes de sistematizar a aquisição e o desenvolvimento do conhecimento, que avança velozmente. No entanto não existe uma uniformidade no avanço das várias áreas científicas. Enquanto, por exemplo, domina-se a engenharia, a física, a astronomia e a química com avanços extraordinários e efeitos práticos maravilhosos, como a construção de aeronaves, viagens espaciais e produção de remédios com substâncias cada vez mais sofisticadas, o conhecimento da natureza humana avança lentamente e tem muitos mistérios não desvendados. Inegavelmente, a ciência médica atingiu um patamar maravilhoso, mas o conhecimento existencial do ser humano evolui de forma mais lenta. O conhecimento das outras ciências rapidamente se transforma em tecnologia, o que é mais difícil nas ciências humanas.
 
Uma vez, ouvi uma história sobre o conhecimento que um cego poderia aprender sobre um elefante. Se ele apalpasse o corpo do elefante, poderia dizer que se tratava de um animal grande, muito parecido com uma parede, por exemplo. Se, no entanto, apalpasse suas orelhas, poderia dizer que se tratava de um animal bem delgado e em forma de concha. No entanto, se seu referencial fosse a tromba, poderia descrevê-lo como tendo o formato de uma mangueira. E se sua referência fossem as patas, poderia dizer que seria um animal em forma de pilastra. Essa é a percepção que tenho sobre o desenvolvimento do conhecimento da mente humana e suas diversas manifestações. Como cegos, tateamos e tomamos a parte como se fosse o todo, na medida em que elegemos um sistema em detrimento de outros para explicar os fenômenos mentais.
 
O conhecimento do ser humano apresentado pelas religiões também se incorporou à nossa cultura. É interessante a forma como tal conhecimento foi apresentado, pois não foi útil apenas para aquele momento histórico, já que seus princípios são válidos até os dias de hoje. Como exemplo, podemos abrir a Bíblia Sagrada e encontrar descrições do ser humano, seus sentimentos e ações em passagens com as quais ainda hoje nos identificamos. Que conhecimento é esse? De onde vem tal sabedoria? Há quem considere que ela foi desenvolvida somente como fruto da cultura humana. Outros, entretanto, crêem naquilo que expressa a constituição dogmática “Dei Verbum”, decretada pelo Concílio Ecumênico Vaticano II, em 1965: “Pela Revelação divina, quis Deus manifestar-se e comunicar-se a si mesmo e os decretos eternos da sua vontade a respeito da salvação dos homens para fazê-los participar dos bens divinos, que superam absolutamente a capacidade da inteligência humana. Este Sagrado Concílio professa que Deus, princípio e fim de todas as coisas, ‘tornou-se inteligível pela luz natural da razão através das criaturas’ (Rm. 1,20), mas ensina também que deve atribuir-se à sua Revelação poderem todos os homens, mesmo na presente condição do gênero humano, conhecer com facilidade, firme certeza e sem mistura de erro o que, nas realidades divinas, não é de si inacessível à razão humana.”
 
O ser humano, diante de Deus e de seus mistérios, pode ser comparado a um homem pré-histórico que despertasse hoje de um sono multimilenar e contemplasse nossa sociedade, a ciência e suas realizações. Que compreensão poderia ter ele? Como adaptar seus esquemas mentais à nova realidade? De que maneira esse homem das cavernas encararia nossos arranha-céus? E os grandes “pássaros metálicos”? Como professa o documento conciliar, desde o princípio Deus tornou-se inteligível, não só pela luz da razão, mas também por sua revelação naquilo que pudesse ser alcançado pela inteligência do homem. Ensina, entretanto, que há em Deus realidades inacessíveis à razão humana. É análoga a condição do nosso hipotético homem pré-histórico. A nova realidade que ele presencia não é irreal só porque ele não a entende. Para compreender, ele precisa evoluir. Nós vemos essa evolução na história humana. Aquilo, que para o homem individual é impossível, realiza-se pela espécie humana, que ainda está a caminho. Rejeitar o maravilhoso avanço científico seria negar a realidade,
ou seja, seria a própria loucura. No entanto, quando se afastou do conhecimento revelado, o homem perdeu o fio da meada, expressando, assim, uma falsa auto-suficiência e sua própria insensatez. Só unindo as duas vertentes do conhecimento é que nos aproximaremos da verdade.
 
 
(Ilustração: scienceblogs.com.br)

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